A arte de tomar a vida nas próprias mãos

Atualizado: Mai 25

“Em cada um vive uma imagem daquele que deve vir a ser. Enquanto ele não realiza, não alcança a sua paz” Friedrich Rückert

Eu gosto de escrever, mas não tenho o hábito. Ando preferindo usar meu tempo para pintar, já que não dá para fazer tudo. Mas hoje quando acordei aconteceu algo que despertou a vontade de me expressar através da escrita e aqui estou eu. O Facebook me lembrou de uma antiga viagem de trabalho à Lima no Peru em 2013, quando eu ainda era executiva de uma multinacional. Eu amava muito a empresa e as pessoas com quem eu trabalhava, mas definitivamente não estava feliz. A lembrança daquela foto me tocou, pois estava nítido - na minha cara e no meu corpo - que algo não estava bem, alguma coisa estava fora do lugar. Na foto eu me vejo opaca, sem brilho, com 20 quilos a mais, sorrindo um sorriso sem cor que me faz recordar o esforço que eu fazia para me sentir encaixada numa vida que não me cabia mais, fato que eu não conseguia entender e muito menos aceitar. Como eu poderia compreender o que sentia se tinha tudo o que alguém almeja? Uma carreira limpa, bacana, construída com vários anos de experiência em RH, com realizações importantes e relevantes no currículo e que impactavam a vida de tantas pessoas. Tinha uma posição relevante que me permitia fazer a diferença na vida de muita gente. Eu tinha pares, chefes, equipes e fornecedores que eram mais do que colegas de trabalho, eram meus amigos. O que mais alguém poderia desejar na vida? Eu não tinha muita consciência na época, mas eu queria bem mais e não entendia o que era isso. O sofrimento para compreender esse chamado é grande quando não se tem consciência, aí vão anos de terapia e autoconhecimento para ajudar a clarear as coisas. Racionalmente tudo fazia sentido para mim - meu trabalho, minha carreira, meu salário, meu legado. Mas aquela foto que hoje vejo com a clareza da água não me engana e revela que eu estava me sentindo mal. Meu espírito clamava por liberdade, por mais inspiração, por novos ares, novas possibilidades e eu não entendia o que era. Tentava forçar a barra, forçar o encaixe naquele estilo de vida, naquele trabalho que não nutria mais a minha alma. Desenvolvi uma compulsão alimentar para me aliviar o desprazer que sentia, o que só aumentava o peso das coisas, literalmente. Até tentei mudar de Organização. Mudei e tive a confirmação de que, na verdade, não queria uma mudança de empresa, mas sim de VIDA!

O sofrimento precisou alcançar um ápice para eu entender que não queria mais a vida que eu levava. Lembro bem dos sentimentos dessa época. Estava numa Organização nova, numa posição mais relevante, com mais responsabilidade, mais necessidade de provar pra todo mundo que eu era boa no que fazia e que tinham contratado a pessoa certa. Eu não podia decepcionar. E quanto mais eu tentava me encaixar naquele lugar e me convencer de que aquilo estava certo, mais eu me sentia desvitalizada e sem vontade de estar ali. Era uma sensação horrível de aprisionamento, de sufocamento. Eu lembro que tinha uma janela bem grande atrás da minha mesa de trabalho que me permitia olhar para a vida lá fora – as árvores, o sol, o horizonte, as pessoas na rua. Eu me sentia totalmente excluída daquela paisagem, me sentia esvaziada. Era como se o dia passasse e eu não tivesse apreciado a beleza do simples da vida - o sol na pele, o ar fresco, a natureza, o movimento da rua. Era uma rotina de fazer, fazer e fazer coisas que não tinham mais significado para mim. Cumprir metas, objetivos materialistas, fazer acontecer processos e programas que eu não acreditava mais.

Comecei a me questionar muito.... qual o sentido do que eu estou fazendo? Qual o propósito disso na minha vida? Pra que fazer o que não gosto mais? Por que tenho que me encaixar tanto? Por que não me permito mudar? O que me impede???? E o que me impedia era a falta de clareza sobre o meu futuro. Eu não tinha todas as respostas que achava que precisava ter e isso me apavorava! Eu acreditava piamente que para tomar uma decisão tão importante como sair de um emprego tão bom, eu era obrigada a ter um plano concreto e estruturado. O que eu vou falar para as pessoas? Qual será o meu discurso? Qual é meu plano? Eu passava dias e dias rascunhando aquele plano sem sentido, mas precisava da suposta segurança que um planejamento me traria. Enquanto as respostas não vinham, ia vivendo aquela vida sufocante. Até que uma hora tive a certeza de que a dor de ficar era muito maior do que a dor de mudar e me enchi de coragem para tomar minha decisão de sair. E era sair para o vazio, para respirar, para dar um tempo, para pensar na vida, para organizar meus sentimentos e pensamentos. Não queria fazer algo concreto, queria sair para não fazer nada mesmo. A gente morre de medo do nada. A gente foge do vazio da vulnerabilidade, do lugar do não saber. É difícil e desconfortável esse lugar. Não ter respostas é quase insuportável.

Mas claramente se tornou óbvio que ficar não era mais uma opção, então a paz de saber que estava tomando a decisão certa, mesmo que insegura, me confortava.

"A dor de ficar era maior do que a dor de mudar".

E aos poucos fui esvaziando a xícara, tentando não racionalizar as coisas. Me dei um tempo. Me tratei com gentileza depois de tantos anos trabalhando de sol a sol, me fiz merecedora desse vazio, me permiti ser a Fernanda de lugar nenhum, sem sobrenomes corporativos.

Voltei a estudar, a entender que assuntos me interessavam, o que nutria minha alma. Fui buscar novos saberes, novos repertórios, conhecer novas gentes. Me coloquei em movimento, num outro ritmo, numa outra dimensão de tempo e espaço. E a mágica começou a acontecer. Aos poucos fui entendendo quem eu era, o que eu gostava e o que eu não gostava. Fui fazendo novas escolhas, fui plantando novas sementes. E como toda semente que germina, ela precisa de um tempo para crescer. Precisa cuidar, regar, tomar sol, precisa de ar. Fui estabelecendo novas conexões, novos vínculos e apreciando a sabedoria dos novos encontros. No tempo certo, os frutos vieram, parcerias aconteceram. Me reconheci como uma empreendedora da vida, de redes colaborativas. Adoro estar com pessoas que querem construir um mundo melhor, que querem sonhar juntas e colocar o seu talento a serviço disso no mundo. Um mundo mais humano e mais fraterno.

Nesse contexto, com tudo caminhando de forma saudável e harmônica, fui podendo avançar na vida, dar novos passos e começar a entender novos chamados que emergiam dentro de mim. Minha essência queria se expressar ainda mais, de novas formas. Foi aí que um forte despertar artístico aconteceu. Num determinado momento, senti intensamente a necessidade de adotar um hobby meditativo, como alguém sedento no deserto, que precisa beber água. Liguei as antenas, farejei o universo para buscar uma arte que se conectasse comigo. Encontrei a pintura de mandalas com pontilhismo e isso tornou minha vida mais rica e completa ainda. Hoje a arte faz parte da minha vida de muitas formas, a pratico como forma de meditação ativa, às vezes faço algumas peças para quem me pede, dou aulas de artes regularmente e integrei esse trabalho ao meu repertório de desenvolvimento humano, com uma iniciativa que intitulei “Ligando os Pontos”, onde trabalho o desenvolvimento das pessoas com arte.

E tudo isso para dizer que hoje de manhã quando olhei para aquela foto de 2013 e a comparei com uma outra que tirei ontem, percebi quantos significados e quantas mensagens essa diferença gritante me revela. Sinto muito orgulho da caminhada, da coragem e da força que sempre busquei dentro de mim para tomar a vida nas minhas próprias mãos e não sucumbir. Me dá vontade de dizer para as pessoas que se sentem como eu me sentia, que na vida, a gente pode escolher ser o que quiser se soubermos silenciar para nos ouvirmos profundamente, nos conectarmos com a nossa mais pura essência e tivermos fé na vida, a crença de que o melhor nos acontecerá. E é muito importante buscar recursos, eles existem e estão aí para nos ajudar a aprofundar o olhar do autoconhecimento e ampliar a consciência. Existem programas, pessoas, profissionais, livros, um montão de coisas que podem ser úteis e benéficas se você tiver firmeza de intenção e se colocar em movimento, sem deixar o medo te paralisar. O caminho não é fácil, mas pode ser muito gratificante e recompensador para uma vida plena, autêntica e feliz! E como diz Margaret Drabble, “quando nada é certo, tudo é possível”. O impossível é apenas uma palavra quando se tem fé na vida e confiança de que tudo o que nos acontece é para o nosso crescimento.

“Quando nada é certo, tudo é possível e o impossível é apenas uma palavra."

Ah, e aqui está a foto de 2013 que hoje cedo me despertou o impulso de escrever este texto e ao lado uma foto tirada ontem com a minha arte:


Obs: o título do texto é inspirado no livro de Gudrun Burkhard “Tomar a Vida nas Próprias Mãos, como trabalhar na própria biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano”, da editora Antroposófica. Essa obra me ajudou e ainda me ajuda a iluminar a caminhada.

Fernanda Abrantes é um monte de coisas ao mesmo tempo e acredita na multipotencialidade do ser. Atualmente escolhe ser empreendedora de redes colaborativas, facilitadora de diálogos transformadores, coach, consultora de desenvolvimento humano e healing artist. É cofundadora da Eight∞ Diálogos Transformadores, criadora da Dots in a Box e mãe dos gêmeos Caio e Rafael de 13 anos, seus maiores empreendimentos na vida.

© 2020 by Dots in a Box

  • LinkedIn